Nos últimos anos, o Brasil voltou a conviver com um velho conhecido: a expansão do custeio da máquina pública. Em 2025, essas despesas alcançaram o maior nível em quase uma década, justamente após um período de retração. O dado, que poderia se perder em meio à complexidade do orçamento federal, revela muito sobre escolhas que o País insiste em repetir.
O problema não está apenas no montante, mas no significado por trás dele. Entre 2016 e 2022, houve algum esforço (ainda que modesto) para conter o custo administrativo. Não se tratou de uma revolução na gestão pública, mas ao menos havia uma direção — tornar o Estado um pouco menos oneroso. A partir de 2023, essa trajetória se inverteu. O custeio voltou a crescer, e o ano passado consolidou essa guinada.
Quando o governo destina mais recursos para manter prédios, contratos, sistemas, estruturas e serviços internos, sobra menos para políticas públicas essenciais. Cada avanço do custeio administrativo reduz o espaço para infraestrutura, pesquisa, educação, saúde e programas sociais. O espaço fiscal é limitado, além de essa despesa ocupar uma fatia cada vez maior desse espaço. Há ainda um efeito sobre o setor privado, frequentemente ignorado no debate. Gastos improdutivos pressionam o equilíbrio fiscal e, para fechar as contas, o governo tende a recorrer a três caminhos conhecidos: elevar impostos, ampliar a dívida ou reduzir investimentos. Nenhum deles favorece quem empreende, produz ou gera empregos, ao passo que mais tributos comprimem margens, mais endividamento pressiona os juros e menos investimento público deteriora a infraestrutura que a economia precisa para funcionar. Trata-se do efeito crowding out — o Estado ocupa espaço demais e sufoca o dinamismo do restante da economia.
O aspecto mais preocupante é que esse aumento do custeio não vem acompanhado de ganhos de eficiência. O Brasil segue com um Estado lento, burocrático e caro, muitas vezes incapaz de entregar serviços compatíveis com o próprio custo. Em vez de digitalizar processos, revisar contratos, enxugar estruturas físicas e modernizar a gestão, o País parece caminhar na direção oposta. A máquina cresce, mas não melhora. E esse movimento traz um incômodo adicional: o patamar atual de gastos administrativos remete ao período entre 2011 e 2016, quando o descontrole fiscal contribuiu para empurrar o País a uma das piores recessões de sua história. E, aqui, não estou ressuscitando fantasmas, mas reconhecendo que velhos erros começam a se repetir.
O caminho para corrigir esse quadro é conhecido. Revisão de contratos, digitalização de serviços, metas de eficiência, redução de estruturas físicas e modernização da gestão pública. Nada disso é novidade. O que falta é vontade política para combater interesses consolidados e romper com a lógica de que o Estado existe para si mesmo, e não para a sociedade.
Esse aumento do custeio administrativo deveria ser tratado como um alerta. Não é um detalhe contábil, mas um sintoma de que o Brasil continua priorizando despesas de baixo retorno e sacrificando aquilo que poderia estimular crescimento, produtividade e inclusão social. Enquanto essa lógica não mudar, permaneceremos presos ao mesmo ciclo de pouco investimento, baixo crescimento e um Estado que consome mais do que entrega.
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